15 setembro 2006

6-A EVOLUÇÃO DA CIÊNCIA PSICOLÓGICA

► A primeira tentativa de sistematizar uma Psicologia surge entre os gregos. O próprio termo psicologia vem do grego: psyché = alma, e logos = razão/saber/estudo. Etimologicamente, Psicologia = “estudo da alma”. A alma/espírito significava a parte imaterial do ser humano e abarcaria o pensamento, os sentimentos de amor e ódio, a irracionalidade, o desejo, a sensação e a percepção.

► A preocupação dos pré-socráticos era a de definir a relação do homem com o mundo a partir da percepção. Havia uma oposição entre os idealistas (a idéia forma o mundo) e os materialistas (a matéria que forma o mundo já é dada para a percepção).

Sócrates => a partir dele que essas discussões ganham maior consistência. Para ele a principal característica humana era a razão. A razão permitia ao homem sobrepor-se aos instintos, que seriam a base da irracionalidade.

Platão => (discípulo de Sócrates) Procurou definir um “lugar” para a razão no nosso próprio corpo. Esse lugar seria a cabeça, onde se encontra a alma do homem. Quando alguém morria, a matéria (o corpo) desaparecia, mas a alma ficava livre para ocupar outro corpo.

Aristóteles => (discípulo de Platão) Alma e corpo não podem ser dissociados. A psyché seria o princípio ativo da vida. Chegou a estudar as diferenças entre a razão, a percepção e as sensações.

Portanto, 2.300 anos antes do advento da Psicologia científica, os gregos já haviam formulado duas “teorias”: a platônica, que postulava a imortalidade da alma e a concebia separada do corpo, e a aristotélica, que afirmava a mortalidade da alma e a sua relação de pertencimento ao corpo.


A ORIGEM DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA

Séc. XIX => Capitalismo => processo de industrialização => ciência => Sustentáculo da nova ordem econômica, para dar respostas práticas no campo da técnica.

O conhecimento tornou-se independente da fé. Os dogmas da igreja foram questionados. O mundo se moveu. A racionalidade do homem apareceu como a grande possibilidade de construção do conhecimento.

A burguesia, que disputava o poder e surgia como nova classe social e econômica, defendia a emancipação do homem para emancipar-se também. Era preciso quebrar a idéia de universo estável para poder transformá-lo. Era preciso questionar a Natureza como algo dado para viabilizar a sua exploração em busca de matérias-primas.
Estavam dadas as condições materiais para o desenvolvimento da ciência moderna.

Hegel => demonstra a importância da História para a compreensão do homem.
Darwin => enterra o antropocentrismo com sua tese evolucionista.

A ciência avança tanto, que se torna um referencial para a visão de mundo. A partir dessa época a noção de verdade passa, necessariamente, a contar com o aval da ciência. A própria Filosofia adapta-se aos novos tempos, com o surgimento do Positivismo de Augusto Comte, que defendia a necessidade de maior rigor científico na construção dos conhecimentos nas ciências humanas. Propunha o método da ciência natural, a Física, como modelo de construção de conhecimento.

► Meados do séc. XIX => os problemas e temas da Psicologia, até então estudados pela Filosofia, passam a ser, também, investigados pela Fisiologia e pela Neurofisiologia em particular. Os avanços que atingiram também essa área levaram à formulação de teorias sobre o sistema nervoso central, demonstrando que o pensamento, as percepções e os sentimentos humanos eram produtos desse sistema.

► Surgimento da máquina => determina uma forma de ver o mundo.
► O cérebro => Máquina de pensar do homem => precisa ser conhecido para saber do psiquismo humano. A Psicologia começa, então, a trilhar os caminhos da Fisiologia, Neuroanatomia e Neurofisiologia.

► A Psicologia se beneficia com as descobertas feitas para Neurologia (estudos relacionados às células cerebrais), Neuroanatomia (estudos relacionados ao reflexo) e Psicofísica (estudos relacionados à percepção).

■ Instaurou a possibilidade de medida do fenômeno psicológico. Assim, esses fenômenos vão adquirindo o status de científicos, pois para a concepção de ciência da época, o que não era mensurável não era passível de estudo científico.

■ Outra contribuição importante à Psicologia Científica foi a criação por Wilhelm Wundt (1832-1926), na Universidade de Leipizig, na Alemanha, do primeiro laboratório para realizar experimentos na área da Psicofisiologia. Pela extensa produção teórica na área e importância deste fato, ele é considerado o pai da Psicologia moderna ou científica. Junto a Wundt estiveram outros estudiosos da nova ciência como: Weber e Fechner; Edward B. Titchner (inglês) e William James (americano).


A PSICOLOGIA CIENTÍFICA

Pode-se considerar, portanto, a Alemanha o berço da Ψ moderna.
À medida que se “liberta” da Filosofia, ganha seu status de ciência, atraindo novos estudiosos e pesquisadores, que sob os novos padrões de produção de conhecimento, passam a:

►definir seu objeto de estudo (o comportamento, a vida psíquica, a consciência);
►delimitar seu campo de estudo, diferenciando-o de outras áreas de conhecimento, como a Filosofia e a Fisiologia;
►formular métodos de estudo desse objeto;
►formular teorias enquanto um corpo consistente de conhecimentos na área.

A formulação dessas teorias obedeciam aos critérios básicos da metodologia científica:
►neutralidade do conhecimento científico;
►os dados devem ser passíveis de comprovação;
►o conhecimento deve ser cumulativo e servir de ponto de partida para outros experimentos e pesquisas na área.

Embora a Ψ científica tenha nascido na Alemanha, é nos Estados Unidos que ela encontra campo para um crescimento rápido, resultado do avanço econômico que colocou os Estados Unidos na vanguarda do capitalismo. Surgem aí as primeiras abordagens ou escolas em Ψ as quais deram origem às inúmeras teorias que existem atualmente.

Essas abordagens são:

► Funcionalismo => William James (1842-1910);
► Estruturalismo => Edward Titchner (1867-1927);
► Associacionismo => Edward L. Thorndike (1874 – 1949).


O FUNCIONALISMO

É considerado como a primeira sistematização puramente americana de conhecimentos em Psicologia. Uma sociedade que exigia o pragmatismo para seu desenvolvimento econômico acaba por exigir dos cientistas americanos o mesmo espírito. Desse modo, para o funcionalismo importa responder “o que fazem os homens” e “por que o fazem”. Para responder a isto, W. James elege a consciência como o centro de suas preocupações e busca a compreensão de seu funcionamento, na medida em que o homem a usa para adaptar-se ao meio.

O ESTRUTURALISMO

Apresenta preocupação idêntica à do funcionalismo, ou seja: a consciência. Mas, diferentemente de W. James, Titchner irá estuda-la em seus aspectos estruturais, isto é, os estados elementares da consciência como estrutura do sistema nervoso central. Esta escola foi inaugurada por Wundt, mas foi Titchner, seu seguidor, quem usou o termo estruturalismo pela primeira vez, no sentido de distingui-la do Funcionalismo. O método de observação de Titchner, assim como o de Wundt, é o introspeccionismo, e os conhecimentos psicológicos produzidos são eminentemente experimentais, ou seja, produzidos a partir do laboratório.

O ASSOCIACIONISMO

Seu principal representante é Edward L. Thorndike, que também formulou a primeira teoria de aprendizagem na Psicologia. Sua produção de conhecimentos pautava-se por uma visão de utilidade deste conhecimento, muito mais do que por questões filosóficas que perpassam a Ψ.
O termo associacionismo origina-se da concepção de que a aprendizagem se dá por um processo de associação das idéias – das mais simples às mais complexas. Para aprender um conteúdo complexo é preciso aprender as idéias mais simples, que estariam associadas àquele conteúdo.

Thorndike formulou a Lei do Efeito, que passa a ser de grande importância para a Ψ Comportamentalista. De acordo com essa lei, todo comportamento de um organismo vivo (um homem, um pombo, um rato etc.) tende a se repetir, se nós recompensarmos (efeito) o organismo assim que este emitir o comportamento. Por outro lado, o comportamento tenderá a não acontecer, se o organismo for castigado (efeito) após sua ocorrência. E, pela Lei do Efeito, o organismo irá associar essas situações com outras semelhantes. Exemplo: se ao apertarmos um dos botões do rádio, formos “premiados” com música, em outras oportunidades apertaremos o mesmo botão, bem como generalizaremos essa aprendizagem para outros aparelhos, como toca-discos, gravadores etc.


AS PRINCIPAIS TEORIAS DA PSICOLOGIA NO SÉCULO XX


A Psicologia enquanto um ramo da Filosofia estudava a alma. A Psicologia científica nasce quando, de acordo com os padrões de ciência do século XIX, Wundt preconiza a Psicologia “sem alma”. O conhecimento tido como científico passa a ser aquele produzido em laboratórios, com o uso de instrumentos de observação e medição. Se antes a Psicologia estava subordinada à Filosofia, a partir daquele século ela passa a ligar-se a especialidades da Medicina, que assumira, antes da Psicologia, o método de investigação das ciências naturais como critério rigoroso de construção do conhecimento.

Essa Ψ que se constituiu de três escolas – Associacionismo, Estruturalismo e Funcionalismo – foi substituída, no século XX, por novas teorias. As três consideradas mais importantes são:

► Behaviorismo ou Teoria (S-R – Estímulo-Resposta) => Nasce com Watson e tem um grande desenvolvimento nos Estados Unidos. Em função de suas aplicações práticas tornou-se importante por ter definido o fato psicológico, de modo concreto, a partir da noção de comportamento (behavior).

► Gestalt => Nasce na Europa, surge como negação da fragmentação das ações e processos humanos, realizada pelas tendências da Psicologia científica do século XIX, postulando a necessidade de se compreender o homem como uma totalidade. A Gestalt é a tendência teórica mais ligada à Filosofia.

► Psicanálise => Nasce com Freud na Áustria. A partir da prática médica, recupera para a Psicologia a importância da afetividade e postula o inconsciente como objeto de estudo, quebrando a tradição da Psicologia como ciência da consciência e da razão.


A PSICOLOGIA CIENTIFICA

Apesar da existência de uma psicologia do senso comum, nosso olhar se volta para a Psicologia científica. Mas, primeiro é preciso definir o que é ciência (o que não é simples!)

Ciência

A ciência compõe-se de um conjunto de conhecimentos sobre fatos ou aspectos da realidade (objeto de estudo), expresso por meio de uma linguagem precisa e rigorosa. O conhecimento científico é produzido de forma sistemática, com método próprio.
Assim, podemos apontar o objeto de diversos ramos da ciência e saber exatamente como determinado conteúdo foi construído.
A produção científica possibilita uma continuidade: um novo conhecimento é produzido sempre a partir de algo anteriormente desenvolvido. Negam-se, reafirmam-se, descobrem-se novos aspectos, e assim a ciência avança. Portanto, ela se caracteriza como um processo.

Objeto específico, linguagem rigorosa, métodos e técnicas específicas, processo cumulativo do conhecimento, objetividade fazem da ciência uma forma de conhecimento que supera em muito o conhecimento espontâneo do senso comum.

Objeto de estudo da Psicologia

- A objetividade nas ciências (a Astronomia (os astros), a Biologia (os seres vivos). Esse cientista não corre o risco de confundir-se com o fenômeno que está estudando (??)
- O mesmo não ocorre com a Psicologia, que, como a Antropologia, a Economia, a Sociologia e todas as Ciências Humanas, estuda o homem.
- Ciências humanas é apenas o campo/a área de conhecimento. Mas, qual o objeto de estudo da Psicologia?
Se perguntarmos a um psicólogo comportamentalista, ele dirá: “o objeto de estudo da Psicologia é o comportamento humano”. Se a palavra for dada a um psicólogo psicanalista, ele dirá: “O objeto de estudo da Psicologia é o inconsciente”. Outros dirão que é a consciência humana, e outros, ainda, a personalidade.

Diversidade de objetos da Psicologia

A diversidade de objetos da Psicologia pode ser entendida pelo fato de este campo do conhecimento ser muito recente (final do século 19), enquanto como uma preocupação humana já existia há muito tempo na Filosofia. Isso é importante, já que a ciência se caracteriza pela exatidão de sua construção teórica, e, quando uma ciência é muito nova, ela não teve tempo ainda de apresentar teorias acabadas e definitivas, que permitam determinar com maior precisão seu objeto de estudo.
- Outro problema na clara definição do objeto da Psicologia pode estar relacionado com o fato de o cientista – o pesquisador – confundir-se com o objeto a ser pesquisado, que é o próprio homem. O pesquisador está inserido na categoria a ser pesquisada. E há diferentes concepções de homem entre os cientistas (na medida em que estudos filosóficos e teológicos e mesmo doutrinas políticas acabam definindo o homem à sua maneira, e o cientista acaba necessariamente se vinculando a uma destas crenças – Exemplo da concepção de homem natural de Rousseau); outros vêem o homem como ser abstrato, com características definidas e que não mudam, independente das condições sociais.
- Este é um problema encontrado por todas as ciências humanas. Conforme a definição de homem adotada, teremos uma concepção de objeto que combine com ela. Assim, a Psicologia hoje se caracteriza por uma diversidade de objetos de estudo. No entanto, essa diversidade de objetos justifica-se porque os fenômenos psicológicos são tão diversos, que não podem ser acessíveis ao mesmo nível de observação e, portanto, não podem ser sujeitos aos mesmos padrões de descrição, medida, controle e interpretação. Ao estabelecer o padrão de descrição, medida, controle e interpretação, o psicólogo está também estabelecendo um determinado critério de seleção dos fenômenos psicológicos e assim definindo um objeto.
- Em síntese, parece que no momento, não existe uma Psicologia, mas Ciências psicológicas embrionárias e em desenvolvimento.

A subjetividade como objeto da Psicologia

A identidade da Psicologia é o que a diferencia dos demais ramos das ciências humanas como a Economia, a Política, a História etc que trabalha o homem de maneira particular, construindo conhecimentos distintos e específicos. A Psicologia colabora com o estudo da subjetividade: essa a sua forma particular, específica de contribuição para a compreensão da totalidade da vida humana.

Nossa matéria-prima, portanto, é o homem em todas as suas expressões, as visíveis (nosso comportamento) e as invisíveis (nossos sentimentos), as singulares (porque somos o que somos) e as genéricas (porque somos todos assim) – é o homem-corpo, homem-pensamento, homem-afeto, homem-ação e tudo isso está sintetizado no termo subjetividade.


A subjetividade é a síntese singular e individual que cada um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural; é uma síntese que nos identifica, de um lado, por ser única, e nos iguala, de outro lado, na medida em que os elementos que a constituem são experienciados no campo comum da objetividade social. Esta síntese – a subjetividade – é o mundo das idéias, significados e emoções construído internamente pelo sujeito a partir de suas relações sociais, de suas vivências e de sua constituição biológica; é, também, fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais.


A subjetividade não só é fabricada, produzida, moldada, mas também é automoldável, ou seja, o homem pode promover novas formas de subjetividade, recusando-se ou aceitando as inúmeras transformações culturais, históricas, sociais, políticas etc. Daí a idéia de subjetividades emergentes nos dias atuais, isto é, a produção de novos modos de ser. O movimento e a transformação são os elementos básicos de toda a histórica, inclusive da constituição da subjetividade; ela nunca está acabada.
O estudo dessas novas subjetividades vai desvendando as relações do cultural, do político, do econômico e do histórico na produção do mais íntimo e do mais observável no homem – aquilo que captura, submete-o ou mobiliza-o para pensar e agir sobre os efeitos das formas de submissão da subjetividade.

A Psicologia é, portanto, um ramo das Ciências Humanas e o que a diferencia é a forma como aborda o objeto de estudo – o homem – a sua subjetividade. É claro que a forma de se abordar a subjetividade, e mesmo a forma de concebe-la, dependerá da concepção de homem adotada pelas diferentes escolas psicológicas.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2001.

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